Para ver olhos d´Água
“Tanto o ninho como a casa onírica e tanto a casa onírica como o ninho – se é que estamos na origem de nossos sonhos – não conhecem a hostilidade do mundo. [...] Em seu germe, toda vida é bem-estar.” (Bachelard)
O bem-estar é daquelas imagens primordiais referidas por Bachelard, pois nos devolvem à primitividade. No caso, a primitividade do refúgio. Foi certamente esta a motivação que me levou, em 1991, a escolher a fotografia como meio de expressão ensaística para meu projeto de especialização na conclusão do curso de Jornalismo na UFRGS. Doze anos após ter deixado o cantinho do mundo em que nasci, para lá retornei a fim de recuperar meus sonhos e materializar em fotos “a grande imagem das intimidades perdidas”, como ainda diria Bachelard. Em fotos, e não em texto, como seria o caso numa reportagem escrita. A racionalização presente no discurso destruiria as imagens que a fotografia, em sua polissemia intrínseca e em sua abstração preta e branca, estaria mais predisposta a captar.
Ainda vejo trabalhadores se movimentando na olaria abandonada em que encontrei a roda de carreta. A estradinha de chão batido me conduz para mais e mais campo, malgrado a rodovia que hoje põe fim ao seu curso. Os tamancos largados sobre os degraus de pedra falam do sagrado ambiente da casa em que não se podia penetrar com calçados sujos. Minha mãe ainda se debruça para lavar roupas no tanque cheio de musgo, à sombra do velho cinamomo que refrigera as tardes de verão e o tarro perto da janela lá continua para que o frescor da rua impeça o leite de talhar.
Representações simbólicas porque vividas, aconchegantes porque primordiais, para sempre habitantes da minha infância. Até o recorte da cruz do túmulo na contraluz do sol poente é para mim revificante: fala do pequeno cemitério que, em vez de me fornecer o primeiro contato com a morte, deu à minha imaginação infantil a isca para histórias fabulosas sobre os que ali foram enterrados.
Ana Taís Martins Portanova Barros